Por Lucas Mello em 10 de março de 2014

Um conto sobre Pablo Cittari e Líbero Eddad

Pablo Cittari e Líbero Eddad

Líbero verificou novamente o relógio. Já estava sentado naquela cadeira há pouco mais de três horas. E a folha continuava em branco. A reunião com o cliente seria dali duas horas, e ele tinha uma leve impressão de que não conseguiria criar nada suficientemente bom até lá. Estava começando a ficar nervoso quando o telefone tocou.

– Bom dia senhor Eddad, o chefe quer vê-lo. Agora.

– Tudo bem, obrigado Priscila.

Para ser chamado naquele horário, o assunto só poderia ser a reunião próxima. Líbero alisou os cabelos e tentou dar um jeito na camisa amarrotada. Respirou fundo e saiu da sala. Enquanto percorria o corredor que dava acesso à sala do chefe, avistou um grupo de novos estagiários conhecendo a agência. Sentiu uma pontada de inveja da juventude, das preocupações bobas, dos tempos livres, do desconhecimento e, principalmente, dos sonhos. Sentia saudades do tempo em que fora jovem, e não gostava das lembranças e pensamentos que lhe surgiam enquanto criava anúncios sobre famílias felizes, lugares paradisíacos ou momentos amorosos. As vezes ainda perguntava para si mesmo se estava onde realmente gostaria de estar. Não tinha uma resposta certa, pois sempre deixava o pensamento de lado antes de conseguir uma.

– Líbero! O que está fazendo parado no meio do corredor?

A voz alta e grave interrompeu o devaneio. Quando olhou para o chefe, percebeu que ele tinha um sorriso estampado no rosto, mas isso definitivamente não era um bom sinal.

– Vamos, entre logo, temos coisas importantes para conversar.

Assim que entrou na sala viu uma garrafa de whisky na mesa. Mais um sinal de que as coisas não estavam indo muito bem. Pablo Cittari era um homem de meia idade, mas já tinha ido muito longe na busca pelo poder. Hoje está no comando de uma das maiores agências de publicidade da América Latina, além de outros negócios igualmente lucrativos. Sempre foi muito competitivo, e algumas vezes desonesto. Mesmo assim, suas habilidades e competências merecem respeito.

– Sente-se, preciso de você bem confortável e descansado na reunião. – Quando Líbero se sentou, Pablo serviu-lhe um copo de bebida. – Você deve estar achando que estou preocupado com o fato de ainda não ter recebido nenhum material para a campanha.

– Se eu fosse o senhor, estaria muito mais do que preocupado. A reunião com o cliente é daqui algumas horas, e eu ainda não consegui criar nada que possa ser utilizado.

Pablo soltou uma risada e tomou uma grande gole de whisky.

– O famoso bloqueio criativo. Eu sei muito bem como isso é frustrante. Mas sabe o que eu acho? – O homem ficou em silêncio enquanto parecia ler os pensamentos de Líbero. – Eu confio em você e sei que vai conseguir algo fantástico. Sei que no último momento terá uma ideia e surpreenderá todos nós.

– Assim espero, senhor.

– As pessoas sempre são muito afobadas, querem que tudo se resolva num piscar de olhos, sem esforço. Sempre perdem a paciência muito rápido e tudo foge do controle mais rápido ainda. Eu sou diferente, sou mais calmo e sei esperar pelo momento certo. Anos atrás passei por uma crise horrível. Um idiota fez uma burrada e colocou o nome da minha agência na lama. As dívidas se acumulavam e o dinheiro sumia. Foi então que só restou um único cliente, e ele marcou uma reunião de emergência. Mal tive tempo para me arrumar e chegar em cima da hora. Todos haviam enlouquecido. Criação, planejamento, mídia, atendimento, todo mundo estava correndo de um lado para o outro, alguns já estavam até recolhendo os pertences. Diziam que o cliente iria cancelar o contrato, que perderíamos tudo e teríamos de declarar falência. Mas ao contrário deles, fiquei calmo e pensei em todas as alternativas possíveis. Eu precisava de uma solução rápida. – Pablo deu uma pausa para terminar a bebida que restava em seu copo. Se levantou da cadeira, contornou a mesa e sentou na beirada dela, ainda mais próximo de Líbero. – Então percebi que todos já haviam aceito a derrota antecipadamente, e por isso seriam derrotados. Mas eu não havia aceito nada. Ainda estava lutando, ainda havia uma chance se eu acreditasse nela. E foi acreditando nela que eu entrei naquela sala, agindo como se nada estivesse acontecendo, como se tudo o que eu havia conquistado não dependesse daquele momento. E ao invés de simplesmente sentar e escutar o que o meu cliente tinha a dizer, comecei a criar uma nova campanha para ele naquela sala mesmo, improvisando ao máximo. Inventei conceitos, ideias, slogans e tudo o que costumamos levar meses para criar.

– Mas ele tinha ido lá para romper o contrato com o senhor, porque estava falindo.

– Era o que as pessoas diziam. Minha reputação estava sendo destruída por fofocas. Se eu tivesse chegado na sala com cara de culpado e agido como se realmente estivesse falindo, o cliente teria certeza de que tinha de quebrar o contrato. Só que eu agi exatamente ao contrário do que ele estava esperando. Mostrei que todos estavam errados e entreguei um material que só consegui criar porque a minha criatividade é mais do que um ponto positivo dito em uma entrevista de emprego. Eu fiz dela uma filosofia de vida, impregnei no meu ser, fiz com que ela se tornasse parte de mim, como uma perna ou um braço. Quando alguém consegue fazer isso, não importa se tem seis meses ou seis segundos para criar alguma coisa decente.

– E o cliente? O que ele disse?

– Oras, nós estamos aqui hoje, então é claro que ele mudou de ideia. Mas esse não é ponto. Onde eu quero chegar é que a criatividade não pode ser usada somente durante o trabalho. Ela deve estender-se para a vida pessoal, enquanto cozinha para os seus filhos ou enquanto escolhe o caminho para vir trabalhar. – Pablo se dirigiu à janela e começou a observar as pessoas na rua. – Todos dizem que devemos separar a vida pessoal da profissional. Eu penso diferente. Uma é a extensão da outra. O que acontece na vida profissional interfere na pessoal e vice-e-versa. Tenho que admitir Líbero, minha vida pessoal está indo pelo ralo e levando com ela a profissional. Estou vendo de novo os primeiros sinais de uma crise.

Pela primeira vez Líbero viu rugas de preocupação surgirem no rosto do chefe quando ele se afastou da janela e voltou a olhá-lo nos olhos.

– Diga-me, como anda sua vida pessoal?

– Minha vida pessoal? Por que quer saber sobre isso?

– Porque eu quero evitar uma maldita crise, tanto na minha vida quanto na sua. Então, seja sincero e me diga. Como anda sua vida pessoal?

Ainda desconfiado, Líbero começou a pensar melhor sobre sua própria vida. Todas as manhãs levantava no mesmo horário, vestia o mesmo estilo de roupa, ia para o trabalho pelo mesmo caminho, dava bom dia para as mesmas pessoas no elevador, tomava o mesmo café na mesma caneca antes de sentar na mesma mesa e começar a forçar o cérebro a criar coisas originais. Lembrou-se dos estagiários, com suas mentes frescas e sonhos renovados a cada dia. Lembrou-se de quando seu pai o levou para conhecer sua agência de publicidade, de quando ele segurou sua mão instantes antes de morrer, implorando para que cuidasse do que havia construído. Então as próximas lembranças vieram de uma só vez. Lembrou-se da época em que ocupava um cargo igual ao de Pablo, lutando para conseguir levar adiante a agência do seu pai. Lembrou-se de como fracassou, de como seus empregados o abandonaram e como seu último cliente também o fez. Lembrou-se de quando se sentou naquela mesma cadeira em que estava agora, entregando um currículo e começando no seu atual emprego. Ele não tinha uma vida pessoal nem uma profissional. As duas haviam se fundido numa só. Num só desastre, numa só decepção. Então, não sentiu mais necessidade de fugir da resposta. Agora ela parecia muito simples.

– Minha vida está em crise.

– E por que Líbero?

– Porque isso não é o que eu quero para mim.

– E o que você quer?

– Quero fazer aquilo que eu gosto e ser bom nisso, não no que os outros querem que eu seja. Quero que o que eu faça seja eterno. Não para os outros, mas para mim. É só isso o que eu quero.

– Deixe-me te dizer uma coisa, Líbero. Eternidade não é questão de tempo. É questão de intensidade. Viva o que quiser viver, faça o que quiser fazer, trabalhe onde e como quiser trabalhar. Só desse jeito você será bom no que faz. – Pablo voltou a assumir uma postura calma e despreocupada. – E foi pensando nisso que eu tomei a minha decisão. Você e eu iremos entrar naquela sala e agir como se não houvesse nada de errado, você terá uma ideia brilhante, nosso cliente ficará satisfeito, a campanha será um sucesso e depois de tudo isso, eu irei demitir você.

Anteriormente Líbero teria se espantado. Questionaria o chefe, gritaria com ele, diria que não é justo, sentiria medo e desespero. Contudo, sentia uma outra coisa bem diferente. Uma leveza totalmente desconhecida, como se finalmente estivesse no caminho certo. Caminho esse que antes não teria coragem de seguir, mas que agora havia compreendido.

– Acho que é exatamente disso que eu precisava.

– Eu sabia que você iria entender. Agora tudo ficará mais fácil, não existirão mais crises, porque você saberá lidar com elas e vai correr atrás do que quer de verdade.

Os dois se dirigiram à sala de reunião, agiram como se nada estivesse errado, e realmente nada estava errado. Líbero conseguiu criar a campanha, os clientes gostaram e o sucesso veio não como objetivo, mas sim como consequência. E finalmente um velho sorriso voltou a estampar o rosto de Líbero Eddad. Não um sorriso falso ou forçado, mas sim um sorriso de felicidade, uma maneira de ser eterno.

 

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