Por Danila Dourado em 3 de fevereiro de 2017

A esquizofrenia por novos conceitos do mercado publicitário

O mercado publicitário tem duas coisas extremamente irritantes, a primeira é a exaltação do estrangeirismo. Quem não é lá muito adepto dessa compulsão parece até sofrer de algum “delay” profissional de tão generalizada que ela é. A outra é a esquizofrenia por novidades, a mudança é quase obrigatória e não necessariamente a consequência de uma evolução (seja ela pessoal ou da área).

Me preocupa que a nossa base profissional seja tão superficial que qualquer brisa redirecione a nossa rota. Não é porque surgiu um novo conceito ou estratégia que sua agência/você tem que renomear áreas, funções e cargos. Pensa num diálogo entre gestores de agências definindo os próximos passos:

Temos que contratar um Social Media. Melhor ainda, um Community Manager.

– Não pera tem que ter uma área de BI, vamos investir em softwares plenos.

– Wait, vamos focar em Big Data.

– Não tem que priorizar o Marketing de Conteúdo, vamos fazer muito Storytelling.

– Está bem, mas isso não é nada sem um Inbound Marketing completo e de qualidade.

Claro que os conceitos e estratégias mencionados não são excludentes, o diálogo até que faz bastante sentido. Mas o que me deixa desconfortável é saber que, muitas vezes, essa obsessão por novidades esconde profissionais sem profundidade de conhecimento da sua responsabilidade enquanto comunicadores. O Tiririca ecoou em sua campanha o questionamento “você sabe o que um deputado federal faz?”. Chego a pensar que os profissionais do mercado de comunicação também estão precisando de uma auto avaliação e indagar a si mesmos: “você sabe o que um comunicador faz?”.

Não podemos ser tão abertos ao novo e fechados para a essência do papel do comunicador. Nós não somos contratados para “modernizar” a marca com o budget do cliente. Somos contratados para entregar resultados, para levar o consumidor ao ponto de venda, para fazer a máquina de consumo girar. Somos contratados para levar uma informação clara na linguagem e no tom ideal para o público-alvo. Somos contratador para suscitar o desejo de consumir, seja bens materiais ou não. Somos contratados para persuadir e envolver.

É lógico que todas essas estratégias ajudam a cumprir o nosso objetivo, mas o entendimento do negócio do cliente, um raio-x do target e do seu comportamento enquanto consumidor vêm muito antes de definir qual ferramenta usar para mensurar os resultados, por exemplo. Vejo tanta gente criticando Philip Kotler por ele estar ultrapassado, no entanto ele teve um papel fundamental na evolução real da nossa área, quase tudo que ele escreveu continua valendo, nada daquilo se perdeu e sim é uma base essencial para o marketing. Imagina você conversando com um médico que detona um antecessor porque criou a primeira técnica de cirurgia da vesícula, e a mesma está defasada? Tenho certeza que é improvável, pois, para avaliar, se leva em consideração quantas vidas ele salvou, os recursos que ele tinha disponível, além do quanto disruptivo e inovador ele foi para a época. Por favor, respeita o moço!

Que mensagem estamos passando para os nossos clientes? No mínimo, estamos perdidos e não sabemos muito bem o que fazer. Você entregaria a sua empresa nas mãos de profissionais com um discurso tão efêmero? Tudo bem que o grande Zygmunt Bauman disse que “Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar.” Mas, minha gente, é muita modinha para pouco resultado real.

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