Por Fabio Queiroz em 9 de março de 2017

O que aconteceu com o Banguela Records?

Anos 90.  A cor dessa cidade, Collor, programas de auditório, Leandro e Leonardo. Todos esses elementos fizeram parte da cultura popular brasileira em uma década ascendente para divergências de ideias e contribuições independentes para a evolução cultural, tecnológica, social e comportamental da nossa sociedade. Mas de fato, o que ocorreu com o selo que juntou tais características para propor uma nova forma de produzir ideias?

Eles estavam muito à frente dos anos 90. O selo Banguela Records funcionou de forma instintiva, com a intenção de dar voz à bandas que trouxessem de volta um espírito adormecido do Rock Nacional. Era colaborativo, trazia e suportava a ideia de que para realizá-las era preciso o trabalho coletivo de todos que fizessem parte do selo, desde produtores que entendiam como funcionava o mercado fonográfico na época até os músicos que estavam tentando mudá-lo.

O Banguela foi responsável por criar algo novo de forma natural, uma metodologia que se embasava em uma maneira colaborativa de produzir música. O preço era: desorganização, horas de trabalho sem intervalos, pouco dinheiro para muitos grupos e a batalha contra o ego dos próprios artistas. O valor: a descoberta de bandas como Chico Science & Nação Zumbi, Planet Hemp, Mundo Livre S/A, Raimundos, Maskavo Roots, Little Quail and The Mad Birds, entre outras que abriram espaço para a diversidade de sons que nosso país comporta em todo seu território. Talvez o selo, em seu curto período de existência, tenha tido mais relevância do que toda década para o cenário cultural daquele período.

É fácil copiar algo, pois já está pronto, é rápido, e talvez se tenha na cabeça do ser humano a concepção de que após utilizar algo, é normal se apropriar daquele conceito. Quem nunca copiou um exercício na sala de aula de um colega, até mesmo uma prova? Inovar é sair de uma zona de conforto e entrar em um coliseu consigo mesmo, as armas são os seus conhecimentos, a defesa é sua adaptação ao contexto e o tempo é o imperador de quem se é o refém, que com seus ponteiros, na medida em que passam, dirão se você irá sobreviver ou não.

A luta era constante e os desafios foram criados por eles mesmos no decorrer que cresciam. Mas em que ponto o selo Banguela Records, o independente mais importante que existiu para contribuição musical no país, falhou?

Nenhum. Ele apenas deixou de existir. O instinto criado pelo Banguela levou para o futuro da indústria fonográfica a compressão da diversidade musical que pode ser encontrada pelo país, em seus mais diferentes estilos, componentes, instrumentos, personagens, arranjos e raízes. Também, ampliou a percepção de bandas para a palavra independência em seu mais essencial significado. A Banguela Records não foi um selo, foi um movimento que identificou movimentos e ajudou a produzi-los e distribuí-los.

Hoje (2017), o acesso à internet proporciona tudo o que Banguela pregava naquela época de maneira muito mais eficiente. Porém, quando olhamos para trás e percebemos que a história é mãe do futuro, nós, os Millennials, só devemos disseminar o sentimento de gratidão por nossa mãe ter existido.

A liberdade criativa que não deixava espaço para preocupações do gerenciamento de um negócio, o estouro do orçamento na gravação de um dos melhores discos nacionais já feitos (Samba Esquema Noise) Mundo Livre S/A, o espírito do Sexo, Drogas e Rock And Roll que guiava o selo, o excesso de bandas que o procuravam buscando uma oportunidade… Alguns destes motivos podem ter se tornado o fim do selo, mas a verdadeira pergunta que deve ser feita é: se não tivesse acontecido exatamente da forma que aconteceu, a importância do Banguela Records teria sido a mesma?

Em 2015, o Canal Brasil lançou o documentário dirigido pelo jornalista Ricardo Alexandre Sem Dentes- Banguela Records e a turma de 94. Caso esteja interessado em saber um pouco mais desta história, o play vale a pena: 


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