Por Reinaldo Del Trejo em 22 de novembro de 2017

“Se a coisa tá preta, a coisa tá boa.”

Quando Leônidas da Silva improvisou um malabarismo lá no começo do século passado, os adversários ficaram com dúvidas, e até o árbitro pensou em anular aquele lance, que tempos depois foi chamado de bicicleta e é conhecido como uma das coisas mais plásticas do futebol.

Machado de Assis, que deixou todos loucos com sua literatura extremamente detalhista e incisiva, também era de origem negra. Chamado por muitos de “mulato”, que tem sua etimologia do latim “mulus” – em português significa mula. Isso já seria uma longa discussão etimológica racial que assombra nossa sociedade desde sempre.

Acima, dois gênios: um do futebol, esporte que faz o coração do brasileiro bater mais forte; e a literatura. Ambos de origem negra, e assim como a capoeira, feijoada, e tantos outros itens que enobrecem a nossa cultura.

Olhar um jornalista de muita experiência como William Wack tirar sarro em ser “coisa de preto”, é um incomodo para todo o país. E o pior de tudo isso é o fato de ouvir sussurros do tipo:

– Mas ele é burro, hein. Como fala isso na frente das câmeras?

Então pera lá! Quando não tiver ninguém olhando, pode? Claro que não. É um preconceito entranhado desde quando os portugueses desembarcaram em nosso país e buscaram os negros na África para servirem de escravos.

O tempo mudou, mas parece que a mentalidade antiga e arcaica, não. Muitos brancos ainda olham de cima para baixo para os negros. E esquecem que a nossa cultura é tão negra, que ter preconceito sobre tal é como ter preconceito sobre a própria origem.

54% da população brasileira é negra. Somos abençoados por essa mescla cultural, e ainda sim, existe um preconceito camuflado, que não deveria acontecer. Ao invés de fingir respeito, todos merecem respeito de verdade.

É triste ver que em campanhas publicitárias, alguns negros são colocados como “cota”, e não simplesmente por fazer parte da beleza do país. Me responda a simples pergunta:

– Como um país de maioria negra, tem a maioria das propagandas com mulheres brancas?

Não me baseio em dados estatísticos para isso. É apenas uma opinião do que vejo no dia a dia. Mas como o povo negro não é bobo. Continua criando e sendo criativo sem precisar da aceitação, seguindo a ideia de Nelson Mandela, que um dia disse: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar.”

Então, ao invés de propagar ódio, propague criatividade. Que todos os negros, brancos, amarelos, vermelhos, rosas ou seja qual for a sua cor, pense que todos temos o direito de sermos olhados como iguais. Independente da sua cor. E lembre-se, criatividade é “coisa de preto”, assim como qualquer outra coisa.

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