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Fotografia Sensual e o Nu Artístico: Pré-conceitos

Leo Arcoverde 24 de Janeiro de 2013
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Atualmente, ao folhearmos uma revista não surpreende fotos em que aparecem belas mulheres de biquíni, com uma nudez dissimulada, ou até mesmo completamente nua. Carnaval tá bem aí pra nos provar isso. Mas nem sempre foi assim. No início do século XX, tal situação seria impraticável em revistas, o que nos faz pensar como saímos de uma sociedade conservadora que vigiava os corpos femininos para uma outra que adora despi-los.

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Um dos primeiros fotógrafos em dedicar-se com assiduidade ao nu foi Félix-Jacques Moulin, quem em 1849 abriu uma loja no bairro parisiense de Montmartre e começou a produzir daguerreótipos – pequenos cartões postais com fotos, como acima – de senhoritas jovens em diversas poses. Contudo, em 1851 o seu trabalho foi confiscado, e foi sentenciado a um mês de prisão pelo caráter obsceno das suas obras. Boris Kossoy – um dos maiores autores que pesquisam a fotografia no Brasil – disse que o fotógrafo é um “filtro cultural”, ou seja, ao fotografar, transmite para a fotografia a sua ideologia bem como a de seus empregadores, interferindo na realidade fotografada e lhe impondo o seu ponto de vista sobre o objeto. Então nossa cultura atual prioriza o culto ao corpo? Calma aí. As transformações ocorreram com maior intensidade principalmente nos anos 1960 quando pega de vez a moda do biquíni. Lembrem-se que esse traje diminuto nem sempre foi bem visto pela sociedade.Em 1961 o caricato presidente Jânio Quadros proibiu o uso de biquíni nas praias brasileiras, acreditam? As mulheres usavam maiôs. Inspirados nos ares do paz e amor dos hippies americanos, o Brasil fez sua própria revolução cultural.

Fruto de um contexto complicado que envolve desde a chamada revolução sexual e a geração dos anos rebeldes até o acirramento da competição pelo mercado da cultura de massa, a exploração e exibição do corpo e a sensualidade ganharia espaço com fotografias cada vez mais ousadas. A nudez surge como um ótimo chamariz de leitores, embora os próprios agentes envolvidos – como a modelo a ser fotografada – não estivessem tão seguros com o novo nicho de arte que estava surgindo.

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Não entendeu? Deixa eu explicar melhor: A sensualidade por meio da fotografia foi criada no Brasil porque atraía mais leitores para as revistas da época. Sexo vende. Mas ninguém era louco de pôr uma matéria com sexo explícito na década de 1970. Ao menos não em revistas de massa, tipo O Cruzeiro, a pioneira deste tipo de exploração não pornográfica. As praias estavam sempre lotadas de mulheres bonitas, exibindo novos tipos de maiô, algumas inclusive já usando o chamado duas peças, ou biquíni – o que constantemente causava escândalo entre as mais conservadoras. Mas os homens adoravam tais exibições… e isso fazia vender revista. E lembrem-se como a sociedade era machista então. O homem era o provedor – e portanto movimentava a economia. assim começou a exploração do corpo na mídia.

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O nu masculino na fotografia não foi tão habitual quanto o feminino, mas teve uma produção constante durante toda a história da fotografia, especialmente em relação à arte homoerótica. O nu masculino não tinha tanta aceitação como o feminino, considerado o paradigma da beleza pela sociedade do século XIX, com uma visão ainda fortemente machista, na qual a possível sensibilidade para temas eróticos por parte da mulher não era considerada. Mulher não contribuía culturalmente antes desta revolução.

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Curvas. Tudo se resume em curvas. Os corpos femininos possuem formas mais atrativas – no sentido biológico – pois é composto de curvas delicadas, ao contrário do corpo de um homem, que tem ângulos e definição muscular. Ao menos nos padrões estéticos vigentes há um certo tempo. É, de certa maneira, desagradável ao olhar. Isso também pode explicar porquê no cinema a nudez frontal masculina ainda é um tabu. Pode ser explicado pelas formas biológicas. Hoje, revistas de homens nus são para o público gay, na sua maioria. Não que mulheres não comprem, mas o público alvo declarado são os homoafetivos.

Uma coisa que sabemos – com relação ao aspecto social da fotografia sensual feminina – é que mulheres que posavam para pinturas de nu na época renascentista, lá em 1800 e guaraná de rolha, eram na sua maioria, prostitutas. Afinal, a nudez não era coisa de mulheres de família. Na contemporaneidade, o nu começou a ser tratado de forma mais comum na arte, devido às revoluções culturais que aconteciam.

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De certo a fotografia sensual e o nu ainda são tabus. Ainda é algo sujo, impuro e errado. No caso das mulheres, seja por medo de ser julgada como vadia ou por medo de enfrentar o seu próprio corpo, há o medo da comparação com as mulheres ditas como beleza universal pela mídia. Mulher bonita não tem celulite, mulher bonita não tem pneuzinho, mulher bonita não tem peito caído. Longe da realidade.

 

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Leo Arcoverde

Leo Arcoverde, designer, publicitário (diretor de arte), fotógrafo, ilustrador e metido a redator nas horas vagas. Geek com mau-humor matinal, seco, sarcástico, cáustico, até brincalhão e simpático às vezes. Nem sempre.

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