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Será que ações ao estilo “Chiquinho Scarpa” já não colam mais?

Felipe Ferreira 8 de dezembro de 2015
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chiquinho scarpa

Parece mentira, mas o outdoor acima é real e fez parte de uma campanha promovida por um suposto Movimento pela Reforma de Direitos, dizendo defender uma sociedade igualitária e o fim dos privilégios concedidos aos deficientes físicos. A argumentação era de que todos os cidadãos são iguais perante a lei e, portanto, não é justo que alguns tenham regalias. A mensagem foi considerada ofensiva por muitos internautas que manifestaram sua revolta na página do Movimento no Facebook.

Posteriormente, foi revelado que tudo era parte de uma campanha publicitária promovida pela agência Competence para o Conselho Municipal das Pessoas com Deficiência de Curitiba, em razão do Dia Internacional da Pessoa com Deficiência Física, e do Dia Mundial da Acessibilidade, celebrados em 3 e 5 de dezembro, respectivamente. A ideia era chamar a atenção para as dificuldades enfrentadas diariamente por estas pessoas e dizer que não existem privilégios, mas sim direitos que constantemente são desrespeitados.

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Houve repercussão além das mídias sociais. Instituições como a OAB (Ordem dos Advogados Brasileiros) e a Câmara Municipal de Curitiba, se manifestaram sobre o outdoor, além do buzz gerado na imprensa. A iniciativa foi muito parecida com a campanha promovida pelo Conde Chiquinho Scarpa, em 2013, para incentivar a doação de órgãos. Na época, ela foi um dos assuntos mais comentados, gerando uma repercussão incrível e premiações posteriores.

O sucesso do case Scarpa serviu de precedente para que muitas pessoas, ao ver o outdoor de Curitiba, imaginassem se tratar de alguma peça publicitária. Até mesmo parte das matérias nos portais de notícias deixaram essa hipótese em aberto. A questão em si é que tanto o enterro do Bentley como o Outdoor aplicaram a mesma técnica que se baseia em defender um ponto de vista polêmico e controverso, mas totalmente inverso ao que se pretende dizer, utilizando assim combustíveis como o ódio, a revolta e a indignação para promover a campanha. É pegar a força gerada pela negação e transformá-la em afirmação. O problema disso ocorre quando as pessoas suspeitam de ser publicidade, pois os combustíveis (ódio, revolta e indignação) são significativamente reduzidos e substituídos pela dúvida e cautela, de modo a prejudicar o sucesso da campanha. Sendo assim, se tais tipos de ações forem utilizadas de forma recorrente, a proximidade de tempo entre elas vai se tornar um fator prejudicial.

Entretanto há uma corrente de pensamento que defende a livre circulação de ideias, em especial as mais polêmicas e esdrúxulas, sem qualquer pudor ou respeito ao politicamente correto. De acordo com essa forma de pensar, ao permitir a liberdade de opiniões controversas como o fim dos direitos aos deficientes, por exemplo, estimula-se o debate sobre elas visando evitar que ajam de forma velada. Surgem assim manifestações do tipo #precisamosfalarsobreisso, #precisamosfalarsobreaquilo, muito bem encaixadas em campanhas envolvendo o racismo, machismo, homofobia e outras de cunho social. Porém nestes casos, elas diferem do Outdoor e do case Scarpa ao dispensarem o jogo de revelação e surpresa, embora tenham em comum a mesma abordagem no sentido de transformar a negação em afirmação.

A campanha em prol dos deficientes físicos teve uma repercussão considerável, aliás, deixo os meus parabéns aos que trabalharam nesta iniciativa. Porém, a técnica utilizada é eficaz, mas o uso do suspense/revelação deve visto com cautela por representar um fator crucial na potencialização ou minimização dos resultados esperados.

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Felipe Ferreira

Valorizo as mais diversas formas de comunicação e procuro sempre provocar algum tipo de reação nas pessoas. Me interesso por um monte de coisas e gostaria de ter tempo infinito para aproveitar todas elas.

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