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Sobre escrever. E ponto.

Giovana Cabral 8 de Janeiro de 2016
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shutterstock_331855001Imagem: shutterstock.com

Passei alguns sagrados minutos tentando decidir qual seria a maneira correta de começar este texto. Não sabia se era melhor iniciar com um LEAD, nariz de cera, quadrinha, poema rimado, uns rabiscos do bloco de notas depois de uma reunião de briefing ou com uma nuvem semântica resultante de um breve kick-off.

Apesar dessa dúvida momentânea, considerando que já estou no segundo parágrafo, podemos observar que de alguma forma dei o pontapé inicial.

É aí que começamos a dar forma para este enredo.

Mas primeiro, permita-me que eu me apresente*. Você dificilmente já me viu por aqui, pois certamente eu estava ocupada saindo da redação de jornal e indo para o centro efusivo de uma sala de criação. Jornalista que atua em outro setor? Será que isso funciona?

Antes que você levante uma das suas sobrancelhas e queira, mesmo que involuntariamente, se questionar sobre essa migração de função, venho alertá-lo que isso não importa para mim. Soou um pouco pesada a maneira que eu falei, então vou reconsiderar: venho alertá-lo de que isso não tem importância para ninguém.

Um diploma, hoje em dia, é apenasmente™ um certificado. E aproveito para pedir que ninguém condene esses neologismos que uso para ambientar o texto da maneira que me cabe a licença poética.

Quando embrenhei nesse caminho publicitário, eu estava empregada. Trabalhava numa assessoria de imprensa que nada mais é que uma agência de um só cliente. Você já parou para comparar a semelhança que há entre assessorias e agências? Existem muitas e elas trabalham bem juntas.

Mas esse não é o caso. Ninguém aqui precisa saber do histórico da minha carteira de trabalho. Ninguém precisa saber do seu também. Aquele velho chavão de que “você pode fazer o que quiser” é a única realidade. Só é preciso querer de verdade.

Certa vez, Murilo Gun disse que “se você fizer uma pergunta para uma criança ela pode não responder corretamente, mas com certeza dará uma resposta criativa”. E essa criança vai crescer, se tornar arquiteto, advogado, engenheiro, diplomata, músico ou seguir qualquer outra carreira. E em raras ocasiões isso vai estar condicionado a uma formação acadêmica e, em outros raros casos, essa criatividade dela vai se concentrar apenas na publicidade. Qualquer área pode ser criativa. Ser inovador é que é a diferença real nessa patacoada.

A faculdade não é o fim do caminho, ela é a curva. A mais rasa delas, eu diria. Lá você aprende muitas e muitas coisas úteis, mas se não tiver interesse em aprofundar isso, sinto muito, mas estará fadado ao completo e certeiro fracasso. Foi com ela e, principalmente, fora dela que aprendi a diferenciar um composto textual opinativo de um amontoado de ofensas. Foi dentro daquelas salas e, também, longe daquelas paredes que aprendi que quem ignora perguntas não é digno de saber o porquê existe ponto de interrogação ao final de cada frase. Foi na faculdade que treinei o olho para ver, mas foi fora dela que precisei decifrar o que enxergava.

E por ser apaixonada por texto, poderia ser formada em letras, filosofia, história, ciências sociais, jornalismo ou publicidade. Quando muito, poderia apenas ter sido muito bem alfabetizada nas séries de ensino fundamental e médio. Se o meu talento, natural ou desenvolvido, fosse para trabalhar “escrevendo”, nada iria mudar no destino profissional que tanto me brinda com satisfação nos dias de hoje.

Quando vejo que as pessoas se incomodam que outras estejam ocupando seus lugares no mercado de trabalho, apenas consigo entender que elas não se sentem boas o suficiente para deixar de se preocupar com seus cargos. Então a “invasão” de jornalistas em agências é uma preocupação para quem? Para quem pensou que publicidade era uma brincadeira a ponto de ignorar a gramática? Para quem imagina que os mesmos quatro anos não servem para formar apenas os alunos interessados? Ou, melhor dizendo, para aqueles que relevam o fato de que escrever um anúncio ou uma matéria para o mesmo jornal são coisas tão parecidas que os profissionais podem sim trocar de função.

Vamos levar em consideração algumas situações hipotéticas: se você não tiver aptidão natural para salvar vidas, não seja médico. Se você acha que armas e prisão resolvem mais que educação, não seja professor. Se você não dá importância para a mensagem do texto, não seja redator, revisor ou editor. Simplesmente não seja a pessoa que aponta o dedo na cara da outra e questiona a razão dela ter certo traquejo para algo que você “acha impróprio para a formação dela”.

Este texto (leia aqui) insinuou a existência de uma possível “História das agências-redação”. Venho dizer aos que chegaram ao final dessa leitura que, além de corrigir o título da publicação, afirmo que aquelas palavras não passam de estória.

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Giovana Cabral

Faço um mundo de crônicas que vez ou outra tornam-se textos publicitários. Pode ser que você não tenha ainda vivido o bastante pra entender, mas aqui está um caminho: medium.com/@gi_cabral. Tenta.

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