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Tá com dó do job? Leva ele pra casa.

Reinaldo Del Trejo 16 de novembro de 2017
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Cristian é um redator em uma agência de médio porte no interior. Assim como todos os redatores, ele tem um chamego todo especial por um cliente. O cliente é de peças de motos, e ele é apaixonado pelo ar entrando pelo capacete todos os dias antes e depois de sair do trabalho.

Em uma sexta-feira, perto das 17h, ele abriu sua caixa de e-mail e tinha um job urgente. O seu cliente especial precisava de um Flyer para uma linha de guidão personalizado. O briefing tava lindo, com detalhes específicos. O arquétipo já estava todo decorado na cabeça de Cristian, e a pasta de referências no Pinterest tinha mais de 500 pins para inspirar.

Ele selecionou uma música toda especial e abriu um doc em branco. O simples estava na sua cabeça: informar ao leitor sobre a promoção especial que tinha apenas a duração de uma semana. As imagens estavam no servidor, ele precisava sentar com seu parça de arte e pensar em algo. O diretor de arte já veio e falou:

– Rapaz, tá vendo esses produtos aí?  A gente faz um Mix com uns efeitos minimalistas e encaixa seu texto. De resto é sucesso, tá ligado?

Cristian achou a ideia muito simples. Desceu para a área de fumantes. Acendeu seu San Marino, já que era fim de mês e ele não tinha mais grana para fumar um cigarro decente. Pensou, pensou e pensou.

Foi no seu documento de inspiração. Lá tinha Dostoievski e Tolstoy, que fala sempre para seus amiguinhos redatores de boca cheia, que devora um livro atrás do outro. Mas não saia nada no documento. Ego de redator é uma desgraça: quer ser poeta, mas esquece que seu target lê apenas o título de sites de futebol para zoar seu colega que torce para o Palmeiras.

Deu 18h. Hora de ir embora. Nada do job sair. O diretor de criação tinha ido para uma reunião e já devia estar em casa tomando cachaça. O atendimento chegou a mesa do Cristian e disse:

– Até amanhã o job tem que estar pronto, ok?

Ele não fez. Foi para casa, desmarcou um rolê que tinha com uma menina que ele era apaixonado e enfim havia aceitado um convite para sair.

Escreveu uma, duas, três vezes. Nada que era digno de seu talento saia do papel.  Assistiu um episódio de Naruto, foi ao banheiro fazer o número 2, e POW, teve um insight. Escreveu um título bem sedutor e poético.

Ligou para a “cremosa”, ela com a voz embriagada disse que tinha saído com as amigas, ao fundo, ouviu uma voz masculina. Ele desligou o celular e pensou: “ao menos tenho o job do ano, rapaz”.

No outro dia, imprimiu a redação e entregou para o atendimento todo orgulhoso. O seu amigo de trabalho bateu nas costas do redator prodígio e disse:

– Poxa, o cliente acabou de ligar. Resolveu cancelar a ação.

Moral da história: você é um vendedor e não um poeta. E é melhor entregar um job do que querer lapidar demais e não fazer nada.

Ah, sobre a garota: o Cristian perdeu. Não seja como ele. Seja esperto, eficaz e lembre-se que você tem vida após o trabalho.

Reinaldo Del Trejo

Jornalista por formação. Publicitário por atuação e paixão. Formado em Jornalismo pela Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), atua em redação publicitária desde 2016 na agência Luz Própria 360 em Presidente Prudente -SP. Já trabalhou como estagiário na TV e rádio de sua universidade. Na infância, sonhava ser jogador de futebol, estudou um ano de Veterinária e hoje seu objetivo é publicar seu primeiro livro. Curioso é a melhor definição desse publicitário que ama a profissão e busca referências e aprendizado a todo instante.

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