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Roteiro com narrador pode ser preguiça

Tiago Bezerra 16 de julho de 2018
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Filme é fotografia em movimento. Nas suas fotos você precisa de narrador contar o que está acontecendo? Tudo bem, exagerei.

Costumo dizer que roteiro com narrador é a cara da preguiça, porque uma boa fotografia conta uma história. Concorda? Pode não ser uma regra geral, mas na maioria dos casos, conta sim. Então por que ter um narrador contando a mesma história, sendo redundante, lento e maçante?

É muito comum roteiristas iniciantes usarem o recurso do narrador ou excesso de diálogos para contextualizar, digamos, “explicar” a cena. Entretanto, roteiro é literatura imagética. E para mim, essa frase significa que em um roteiro se escreve imagens.

Obviamente diálogos e narrações fazem parte do universo da criação dos roteiros. A minha crítica é com a escolha da fala como recurso o tempo. Vamos imaginar?

Se a cena mostra uma menina e uma boneca vestidas com roupas idênticas, e no olhar da menina tem um ar de surpresa, o roteirista não precisa colocar um narrador em OFF falando: “A menina ficou surpresa, porque a boneca usava as mesmas roupas que ela”.

Quando a gente está escrevendo imageticamente, a gente mostra a cena. E se a gente mostra, não precisa contar. É importante o roteirista partir da seguinte verdade: se você está vendo, ninguém precisa falar nada.

Contudo, existem casos e casos. O narrador é um recurso que pode ser encaixado em várias situações. E em alguns casos passa a ser o elemento mais forte do filme, como por exemplo em “Tropa de Elite” (2007), roteiro de José Padilha, Rodrigo Pimentel e Bráulio Mantovani. Nesse clássico nacional, o Capitão Nascimento narra a maior parte do filme. Mas ali há um propósito, afinal ele está contando sua história e de seu pelotão.

Percebem a diferença? O problema não é usar narrador. O problema é usar narrador ou diálogos em excesso ao invés de descrever as cenas com clareza de ação suficiente para o espectador ver, entender e nada mais precisar ser dito. Se sua personagem abriu o guarda-roupas e se assustou, ela não precisa gritar e dizer: ai que susto. Todo mundo já viu o susto.

Então lembre-se sempre: se você vai ver, eu não preciso te contar.

Um ótimo exemplo é esse Curta-metragem de Rodrigo Blaas, chamado ALMA. Dá uma olhada e depois me diz se precisava falar alguma coisa.

Tiago Bezerra

Redator Publicitário e Roteirista apaixonado por tecnologia, música, cinema e tudo que faz o mundo ser mais agradável.

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